O Grupo de Xaxado Cabras de Lampião tem no seu quadro de dançarinos um bisneto de cangaceiro. Trata-se de Luís Carlos de Araújo Alves, bisneto de Isaías Vieira dos Santos, que entrou para o cangaço como Zabelê, um dos coiteiros e homem de confiança Lampião, que acabou entrando para o cangaço. Luís Carlos trabalha como mecânico, mas é na arte dos antepassados que ele encontra alegria de viver.

 “Ele é um menino que eu admiro bastante, pelo carinho e generosidade com as pessoas; é uma pessoa que sempre me ajudou e se preocupou comigo, um amigo de muitos anos. Me trata bem e nunca me faltou com o respeito; me passa bons conselhos e confiança.  É alguém especial que vou levar para a vida toda e, com todas as letras, ele é fe-no-me-nal. Gosto muito e o admiro imensamente. Tenho sentimento de irmandade, tanto com ele como a Branca Sousa, e sempre deixo claro o quanto os dois são importantes para mim”. Revela Iolanda Lucia sobre seu colega de grupo.

Sua vida escolar durou pouco, mas foi essencial para ele desenvolver o que faz na atualidade. O garoto Luís Carlos, ou simplesmente Zé, como é comumente chamado, passou pelas Escolas Nossa Senhora da Penha e o Methódio de Godoy Lima, onde concluiu o Fundamental 2 (antigo 1º grau – até a 8ª série), a primeira, no terreiro de casa, como se diz por aqui. A outra, um pouco abaixo, mas ambas no bairro onde nasceu e vive até então: a famosa Vila COHAB.

Além de dançarino, é músico e ator, representa no espetáculo de Xaxado justamente o cangaceiro Zabelê, homenageando seu bisavô (Zabelê nasceu no dia 20 de outubro de 1896 e faleceu em 10 de fevereiro de 1978, aqui na capital do Xaxado). Em 2019 recebeu uma justa honraria, uma estátua em tamanho natural, junto com a Maria de Bonita e Lampião, logo na entrada do Museu do Cangaço, terra natal destes dois nomes importantes para a história do município e cangaço.

O bisneto do cangaceiro Zabelê, cuja história lhe foi contada com detalhes pelo seu pai: “Meu bisavô era coiteiro de Lampião e dono de um bar. Certa vez, ao receber Lampião, a Polícia cercou o local e começou um tiroteio. Nesse momento, ele recebeu uma arma do próprio Lampião para se defender. A partir de então, não teve outra escolha, a não ser entrar no bando e seguir como cangaceiro”, conta.

O artista interpretou o bisavô no filme “Lampião e Fogo na Serra Grande”. Aliás, foi após o combate da Serra Grande, na divisa entre Serra Talhada e Calumbi, em novembro de 1926, que Zabelê se entregou à Polícia acreditando no perdão. Era tudo mentira. Ele acabou sendo condenado a 90 anos de cadeia. Depois de cumprir 15 anos, recebeu um indulto do governador de Pernambuco, Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães, e ficou livre. O ex-cangaceiro morreu aos 82 anos, em casa, após almoçar.

“Comecei a dançar desde os 9 anos de idade nas aulas de arte do PROPAC, justamente com Gilvan Santos, meu querido mestre, com quem aprendi bastante e do qual tenho belas lembranças. Depois, a convite de madrinha Cleonice. São muitos anos nesta peleja. Das aulas no PROPAC, passei pelo Grupo Gilvan Santos e, em seguida, o Xaxado Cabras de Lampião. Viajo muito e gosto de representar minha cultura”. Diz o dançarino de jeito sisudo, mas cheio de talento e presteza para a arte. “Para mim, o Xaxado trouxe muita coisa boa, entre elas, aprendizagem e desenvoltura, além de despertar meu lado artístico e musical”. Acrescenta.

O Manejo dos motores na mecânica, herdou de seu pai de criação como ele diz. Se referindo ao Sr. Júlio Ramos (falecido em 2012), ex-prefeito de triunfo e dono da Mecânica Ramos, que até hoje funciona, vizinho a sua residência e onde o dançarino trabalha com afinco e toda ‘graxa’, quando não está em apresentações e/ou viagens com a arte. “Tenho 16 anos de serviços na mecânica e aprendi na prática do dia-a-dia, observando a desmontagem, conserto e remontagem dos motores. Hoje, faço isso até de olhos fechados”. Desafia.

Sobre a sensação de estar todo vestido de cangaceiro para dançar Xaxado, ele sentencia: “chega a dar arrepios. Tá no sangue, tá na raça. É uma sensação inexplicável poder representar nossos antepassados através das apresentações com danças, músicas e teatro”.

Por Carlos Silva – Assessor de Comunicação da FCCL