José Ferreira da Silva e Maria Sulena da Purificação, Residentes no Sítio Passagem das Pedras, em Vila Bella, estado de Pernambuco, tiveram os seguintes filhos:

Antonio Ferreira
Livino Ferreira
Virgolino Ferreira
Virtuosa Ferreira
João Ferreira
Angélica Ferreira
Ezequiel Ferreira
Maria Ferreira
Anália Ferreira.

O primeiro da Lista – Antônio – era meio irmão dos demais.

Dona Maria, antes de contrair matrimônio com José, morava nas proximidades da vila São Francisco e namorava um rapaz da família Nogueira, do qual engravidou. Mas o mesmo, metido a valentão e filho de gente rica, não quis casar-se, deixando a jovem em desolação.

Um certo rapaz, das bandas de Triunfo, Pernambuco, trabalhava como tropeiro e tinha a vila como ponto de parada para descanso e recompor as forças da tropa de burros como seu roteiro quando se dirigia em suas andanças para o Ceará, Alagoas e Bahia, e hámuito tempo paquerava a mesma moça, mas nunca quis se chegar, pelo fato de vê-la comprometida.

Porém, quando soube do acontecido, procurou-a e propôs casamento, assumindo a paternidade da gravidez.

Recebeu de presente do sogro uma faixa de terra – o Sítio Passagem das Pedras – e tiveram o restante dos filhos e filhas.

Agora caros leitores,
Prestem-me bem atenção
Para entender o relato
Dessa minha narração
Concentrem bem a memória
Que vou contar a história
Do famoso Lampião.

Nascido em Serra Talhada
Numa fazenda rural
Aprendeu desde menino
O trabalho artesanal
Com perfeição de ouro
Moldando as peças de couro
Em arreios de animal.

(Gilvan Santos)

 

O terceiro filho – Virgolino – de acordo com sua certidão de nascimento, que se encontra no cartório de registro civil de Tauapiranga (São João do Barro Vermelho, distrito rural de Serra Talhada), no livro n.o 21, Folha 8, nasceu no dia 07 de julho de 1897, uma terça-feira. E, segundo seu batistério, que se encontra na Diocese de Floresta, no livro 13, página 145, n.o 463, consta que ele nasceu em 07 de junho de 1898.

Mais duas filhas tiveram o casal: Maria do Socorro e Maria da Glória. Ambas tiveram morte prematura.

Era costume, naquele tempo, quando as mulheres estavam nos dias de darem à luz, ficarem nas casas dos pais.

Por isso, todos os rebentos nasceram na casa da avó materna, Dona Jacosa, que morava a umas trezentas braças de distância.

Somente com alguns dias, após o resguardo, que durava em torno de trinta dias, era que voltava para casa.

Virgolino, ao nascer, a avó, que a estas alturas tornara-se viúva, agradou-se tanto do neto, que ficou com ele para lhe fazer companhia. Portanto, nasceu e se criou na casa da avó.

Segundo os moradores mais antigos daquelas bandas, aparteira que segurou Virgolino ao nascer e, ao que tudo indica, de todos os rebentos da casa, foi uma senhora chamada Antonia Tonico, moradora da Fazenda Situação.

Em 1905, fez a Primeira Comunhão na Vila São Francisco e em 1912, foi crismado em Floresta.

Como naquela época não havia escolas na região e Virgolino era o mais interessado dos irmãos para aprender a ler e escrever, estudou alguns meses com os professores Domingos Soriano Lopes e Justino Neneu. O primeiro era parente da família pelo lado materno.

A família vivia da agricultura, do criatório de bode e da almocrevia.

Isto mesmo, com dezesseis anos de idade, possuía uma frota de burros e partiu para a almocrevia. Os burros são animais melhores para essa função porque preferem água limpa e comem pouca ração. Vantagem muito boa para essa profissão para quem vive com o pé na estrada.

Saía com a burrama do Sítio Passagem das Pedras para Rio Branco, onde comprava, vindos do Recife ou do Sul do estado, caixas de gás, caixas de bebidas Gato Preto, Old Tom, açúcar refinado, arroz branco, roupas e tecido,bolachas marca “Sertaneja” de Pesqueira – PE. Outras novidades em bugigangas.

Tinha as pessoas certas para entregar esses produtos. No caso de Vila Bella, um deles era Cornélio Soares quem recebia para comercializar. Entregava também para outras cidades, como Belmonte, Ouricuri, Triunfo, Cabrobó, Petrolina e até outros estados, como Alagoas, Paraíba e Ceará. Foi nestas viagens que começou a conhecer palmo a palmo, ponto a ponto do Nordeste, que lhe viria ser útil na futura vida do cangaço.

Ao mesmo tempo, nos dias de feira das cidades, ele vendia produtos fabricados por ele mesmo. Em Vila Bella era muito conhecido quando vinha com seus artefatos de couros confeccionados por suas próprias mãos, com perfeito acabamento e detalhes artísticos: alforge, chibata, colete, gibão, luvas, arreios, cartucheiras, selas, etc. Instalava sua banca ou forrava o chão com esteira ao lado da Igreja do Rosário, onde funcionava a feira livre nos tempos idos.

 

Também foi grande vaqueiro
Ágil e inteligente
Pregava boi na caatinga
Braço sem nunca vê gente
Logo que o boi se espantava
Que o tropé começava
Ele partia na frente.

 

Trabalhou como almocreve
Viajando noite e dia
Com seu pai e seus irmãos
Levando mercadoria
Com seu pai e seus irmãos
Havia de feira em feira
Por isso é que os Ferreira
Todo sertão conhecia.

(Gilvan Santos).

 

Virgolino tocava sanfona nas festas da redondeza, escrevia poesias e no repente desafiava os melhores repentistas da ribeira, confeccionava artefatos em couro emadeira, corria vaquejada e pega de boi no mato.

Quando se tratava de trabalhar, era um verdadeiro furacão em tudo que fazia: na roça, na compra e venda de mercadorias que transportava em lombo de burro.

Os títulos eleitorais de Virgolino, Antônio e Livino foram tirados no ano de 1915; Apesar de não terem idade, Metódio Godoy foi quem articulou tudo para garantir esses votos. Votaram, esse ano, no Partido Borbista, que tinha à frente o oposicionista candidato a governo do estado, Manoel Borba, que Mário Lira e os Godoy tinham a predileção. Os Carvalhos estavam em cima e apoiavam o candidato à reeleição para governador, Dantas Barreto, contando com todo apoio dos Nogueiras e Saturnino.

Depois, no ano seguinte, 1916, sufragaram os Ferreiras o voto ao próprio Mário Lira – Mário Alves Pereira Lira, filho natural do Recife, contraindo matrimônio com uma moça da família Carvalho, veio residir em Vila Bella. Tornou-se um político de forte influência e foi eleito prefeito para a gestão 1916/20.

Ao que tudo indica, quando os Ferreira moravam em Poço Negro, cidade de Floresta – PE -, foram correligionários de Idelfonso Ferraz.

Os Ferreiras tinham uma excelente relação de amizade com Cornélio Ferraz. Inclusive, um parente de José Ferreira chamado Cândido Ferreira, costumava se hospedar na casa desse chefe político. Quando Cândido começou a ser ameaçado pelos inimigos de Lampião, que teve de vir embora de Nazaré, foi este acolhido na Fazenda Caxixola, localizada no outro lado do rio Pajeú, de propriedade do Coronel Cornélio Soares. Lá morou durante toda sua vida, na sua proteção.

 

Os Ferreira eram pobres
Para aquela região
Suas terras eram poucas
E de pouca criação
Mas como eram tropeiros
Ganhavam algum dinheiro
Nas viagens do sertão.

(Gilvan santos)

 

Os Ferreiras comiam e se vestiam, se divertiam e se solidarizavam com os amigos com o produto do suor dos seus rostos.

Uma típica família sertaneja…

 

Na casa de Dona Jacosa – avó de Lampião – nasceu, no dia 7 de julho de 1897, Virgolino Ferreira da Silva. Foi reconstruída em 2001, pela Fundação Cultural Cabras de Lampião. Sítio Passagem das Pedras, Serra Talhada – PE.

 

 Datas

7 de julho de 1897: Nasce Virgolino Ferreira da Silva, em Vila Bella, atual Serra Talhada – PE. Filho de José Ferreira da Silva e Maria Sulena da Purificação.

 

1905: Faz a Primeira Comunhão, na Vila Sâo Francisco.

 

1909: Já trabalhava na agricultura. Vindo a ser almocreve, feirante, artesão e vaqueiro.

 

1912: Foi crismado, também na Vila São Francisco.

 

1916: Começa a rixa com Zé Saturnino.

– Vota pra prefeito em Mário Lira

– Primeiro confronto armado entre os Ferreira e Zé Saturnino, com sua gente.

 

1920: Morre sua mãe. Seu pai é assassinado.

– Virgolino assume a condição de cangaceiro, para vingar de seu pai.

Entra para o bando de Sinhô Pereira e Luís Pedro, onde se revela um líder nato.

 

1921: Lampião e o bando cercam a casa de Zé Saturnino, seu primeiro inimigo – na fazenda Pedreira, quando a mãe do mesmo intercede em favor do filho, pedindo que o cangaceiro poupe sua vida.

 

1922: Lampião recebe de Sinhô Pereira a chefia do grupo.

– Os cangaceiros invadem São José do Belmonte e matam Gonzaga.

– Lampião ataca a baronesa de Água Branca, em Alagoas.

 

31 de julho de 1923: Casamento de Maria Licor Ferreira de Lima com Enoque Menezes. É quando acontece a última entrada de Lampião em Nazaré.

 

1924: Lampião mata o cangaceiro Nêgo Tibúrcio e seu grupo, em Santa Maria, atual Tupanací (Mirandiba).

– Fogo das baixas, entre Lampião e os nazarenos.

– Morre o cangaceiro Antônio Rosa.

– Lampião é baleado no pé, na Serra do Catolé, em Vila Bella. EM função do ferimento, entra em depressão e pensa em entregar-se à justiça.

– Antônio Ferreira ataca a cidade de Souza, no sertão da Paraíba.

– Morre o cangaceiro Meia Noite.

 

1925: Morre Livino Ferreira.

– Lampião e o bando visitam pacificamente a vila de Custódia.

 

1926: Recebe do Padre Cícero a patente de capitão do Exército Patriótico.

– Combate da Serra Grande, em Pernambuco.

– Fogo no Jacaré.

– Morre Antônio Ferreira.

 

– Sabino ataca a cidade de triunfo.

– Assassinam José Nogueira.

– É construída uma nova cadeia em Vila Bella, para prender Lampião.

 

1927: O cangaceiro Jararaca à frente de um grupo invade Carnaíba, em Pernambuco.

– Zabebê é preso em Vila Bella.

– Com vários outros grupos de cangaceiros, ataca a cidade potiguar de Mossoró.

 

1928: Devido à violenta perseguição, Lampião atravessa o Rio São Francisco e o cangaço lampiônico é introduzido na Bahia e em Sergipe.

 

01 de março de 1929: Lampião entra pela primeira vez em Carira.

– 25 de novembro de 1929:

– 25 de dezembro de 1929: Lampião e seu bando promovem uma chacina em Queimadas (Bahia) e fazem presepadas em outras cidades e fazendas arredores.

 

1930: Ano da Revolução; Tem-se uma certa trégua entre cangaceiros e volantes.

– Entra a primeira mulher no cangaço: Maria Bonita.

 

1932: Morre Ezequiel Ferreira.

 

28 de julho de 1938: Lampião, Maria Bonita e mais nove companheiros foram massacrados na fazenda Angicos, no sertão do estado de Sergipe.

 

25 de maio de 1940: A volante de Zé Rufino assassina Corisco, na fazenda Cavaco, em Brotas de Macaúbas, Bahia.

 

1971: Sinhô Pereira visita Serra Talhada, sua antiga Vila Bella, para reencontrar parentes e amigos. Luiz Lorena entrevista o ex-chefe de cangaceiros.

 

7 de setembro de 1991: Plebiscito em Serra Talhada, quando a população decide que Lampião é herói, com o seguinte resultado: 79% votou sim.

 

18, 19 e 20 de julho de 1997: Acontece em Serra Talhada grande festa homenageando os cem anos de nascimento do Rei do Cangaço, o filho mais ilustre da cidade (tributo a Virgolino Ferreira – Cem Anos de Lampião).

 

4 e 5 de agosto de 2001: Inauguração do Museu do cangaço, no sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada.

 

23 de abril de 2002: Julgamento de Lampião – o que não aconteceu no século XX. Júri simulado. Lampião é absolvido por quatro votos a três.

– Primeira semana do mês de junho: Todos os anos acontece o “Encontro Nordestino de Xaxado”, em Serra Talhada.

– Última semana de julho: Realiza-se em Serra Talhada O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO, o maior espetáculo ao ar livre do sertão nordestino