“Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados” (Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna).

            José Pimentel foi o primeiro ator a interpretar João Grilo nesta famosa obra.

            Desde 2012 o mestre das artes cênicas, o mago do teatro ao ar livre, José Pimentel, dividia seu tempo entre O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO e a PAIXÃO DE CRISTO DO RECIFE. Além da direção, fez o papel de Zé Ferreira, pai de Lampião, e Corisco. Neste ano de 2018, apenas dirigiu. Foi seu mais recente trabalho no teatro.

            Em 2011 ele ministrou uma oficina de direção aqui em Serra Talhada, foi quando começou a construir uma relação de amizade muito bacana com a cidade. No ano seguinte, quando o Ministério da Cultura aprovou o projeto do MASSACRE DE ANGICO, já estava escrito que ele seria o diretor, dado sua experiência nessa modalidade de teatro ao ar livre. Seu carinho foi tamanho que se prontificou a fazer um plano de luz, a trilha sonora, trouxe Otávio Catanho para fazer o cenário e efeitos especiais, Alexandre Veloso para cuidar em executar a luz, além de mobilizar a imprensa para divulgação espontânea. Na estréia do espetáculo, anunciou “Serra Talhada está ganhando o maior espetáculo de teatro ao ar livre dos sertões”.

 Biografia 
José de Souza Pimentel (Garanhuns PE 1934). Diretor, ator e autor. Personalidade que se destaca na cena teatral pernambucana, sobretudo, pela capacidade de liderança, pelo espírito contestador e poder de realização. Como encenador e autor, notabiliza-se pelos grandes espetáculos históricos que monta ao ar livre. Como ator, ganha notoriedade por viver o papel de Jesus, por mais de três décadas, em encenações da Paixão de Cristo, que ele próprio dirige.

Adolescente, muda-se para o Recife e torna-se amigo do ator, diretor e cenógrafo Octávio Catanho, que o convida a participar do Grupo Dramático Paroquial de Água Fria, no qual Pimentel aprende, na prática, a desempenhar diversas funções ligadas aos palcos. Em 1956, é levado por Catanho a trabalhar, em pequenos papéis, nos espetáculos da Paixão de Cristo, em Fazenda Nova, município do Brejo da Madre de Deus, Pernambuco.

Por indicação de Clênio Wanderley, então diretor da Paixão de Cristo e do Teatro Adolescente do Recife (TAR), Pimentel integra o elenco de estreia do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, em 1956, fazendo dois papéis: o Major Antonio Moraes e o Encourado. Ainda com o TAR, atua em A Via Sacra, de Henri Ghéon, em 1957, e em Casamento Suspeitoso, outro texto de Ariano Suassuna, em 1958. Em 1959, no mesmo grupo, tem sua primeira experiência como encenador, dirigindo a peça A Grade Solene, de Aldomar Conrado, na qual também atua.

Em fevereiro de 1960, nasce o Teatro Popular do Nordeste (TPN), e Hermilo Borba Filho o convida para fazer parte do grupo. Em maio, o Recife ganha uma nova casa de espetáculos – o Teatro de Arena, cujos sócios-proprietários são Alfredo de Oliveira e Hermilo Borba Filho. Nesse empreendimento, Pimentel atua em diversas montagens.

O texto Jesus, o Mártir do Calvário, escrito por Pimentel, passa a ser usado na Paixão de Cristo de Fazenda Nova, em 1961. Na ocasião, ele assume o papel de Pilatos. Em meados desse ano, sua carreira de encenador começa a se fortalecer: dirige A Farsa da Esposa Perfeita, de Edy Lima, para o Teatro de Arena; e, em 1962, assina a encenação de Município de São Silvestre, de Aristóteles Soares, para o TPN. Nesse ano, Plínio Pacheco, coordenador-geral dos espetáculos da Paixão de Cristo, convida Pimentel, além de amigos e outros atores do espetáculo, para compor a diretoria da recém-fundada Sociedade Teatral de Fazenda Nova (STFN).

Recebe o prêmio de melhor intérprete masculino, atribuído pela Associação dos Cronistas Teatrais de Pernambuco (ACTP), em 1966, por seu desempenho no papel de John Proctor, da peça As Feiticeiras de Salém, de Arthur Miller, com a direção de Milton Baccarelli.

A cidade-teatro de Nova Jerusalém abre suas portas para o primeiro espetáculo da Paixão de Cristo em 1967. O texto Jesus, de autoria de Plínio Pacheco, é encenado, com a direção de Clênio Wanderley. Quando Wanderley viaja para a Europa, em 1969, Pimentel é convidado por Pacheco a assumir a direção do espetáculo, sem deixar de atuar, desempenhando os mesmos papéis da temporada anterior: o Demônio e Pilatos.

Em 1971, a STFN desenvolve o projeto Teatro de Verão com a finalidade de ocupar a Nova Jerusalém no segundo semestre de cada ano. Para a primeira temporada, é escolhido o texto Calígula, de Albert Camus. Pimentel protagoniza e dirige a peça, aproveitando os cenários ao ar livre dessa cidade-teatro, imprimindo à montagem um tom grandioso, como o da Paixão de Cristo. O Teatro de Verão retorna, em 1972, com o mesmo espetáculo, sempre obtendo boas críticas, mas sem a desejada resposta de público. Na mesma época, outra iniciativa da STFN é posta em prática: o projeto O Circo no Mundo, com a construção do Circo da Raposa Malhada onde, além dos atos circenses, apresentam-se espetáculos teatrais. Pimentel atua em Lampião no Inferno, de Jairo Lima, espetáculo de estreia do circo, vivendo o papel de Satanás, com direção de Lúcio Lombardi.

Em paralelo à atividade teatral, Pimentel inicia, também em 1972, o curso de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, e gradua-se em 1975. Essa qualificação, aliada à experiência como teleator, favorece sua inserção na televisão pernambucana como criador e apresentador de programas.

Com o aumento de público nos espetáculos da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, fica cada vez mais difícil ouvir os atores. Depois de tentar, em 1972, solucionar o problema com o uso de microfones, Pimentel instaura, em 1973, a dublagem como recurso característico daquele e de outros espetáculos ao ar livre concebidos por ele.

Com a saída do ator Carlos Reis do papel de Jesus na Paixão de Cristo, em 1978, Pimentel o substitui e interpreta pela primeira vez o papel do Nazareno. E assume a Diretoria de Artes Cênicas da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, tornando-se responsável pela administração dos teatros municipais da capital, entre 1979 e 1983.

Em paralelo à atuação na Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, Pimentel mantém a atividade nos palcos do Recife. Em 1979, dirige e protagoniza, mais uma vez, Calígula, de Albert Camus, agora produzido pela Aquarius Produções Artísticas, aliada à Companhia Praxis Dramática (CPD). Nesse espetáculo, recebido com ressalvas por parte da crítica, Pimentel propõe uma atualização da história contada por Camus, pondo em cena elementos visuais vinculados à contemporaneidade brasileira. No programa da peça, ele diz: “Aos puristas e intelectuais um aviso: o texto de Camus, eterno e com toda a sua beleza, será entregue íntegro e intacto, virgem e donzelo, quase intocado. Agora, o espetáculo é meu e se preparem. Amarrem os cintos porque o negócio é pra valer e pra bagunçar muita cuca”.

Em 1982, sob os auspícios da Prefeitura da Cidade do Recife, com produção da STFN, estréia O Calvário de Frei Caneca, espetáculo que aborda os episódios históricos da Confederação do Equador, na primeira metade do século XIX. Além de atuar, Pimentel assina o texto e a direção dessa montagem, apresentada ao ar livre, para grande público, em palcos montados em frente da Igreja do Livramento, da basílica de Nossa Senhora do Carmo, da Igreja de Nossa Senhora do Terço e do Forte de Cinco Pontas.

Dois anos depois, outra vez com produção da STFN, e patrocínio do governo do estado, Pimentel dirige e interpreta o principal papel do auto Jesus e o Natal, de sua autoria, encenado nas ruas do Recife. O texto conta a história de um casal de favelados, José e Maria, às voltas com o nascimento do primeiro filho. A peça gera polêmica pelo fato de a personagem Maria se surpreender com a gravidez, uma vez que fazia uso de pílula anticoncepcional.

Mais um espetáculo de massas é produzido pela STFN, em 1984, com texto, direção e atuação de José Pimentel: Batalha dos Guararapes. Com o patrocínio do governo do estado, é apresentado em setembro desse ano no Parque Nacional dos Montes Guararapes, sítio histórico, cenário da verdadeira batalha que culmina com o fim do domínio holandês em Pernambuco no século XVII. Como os demais espetáculos ao ar livre, a Batalha dos Guararapes repete-se a cada ano, até 1986. A partir de 1987, cessa o patrocínio do governo e a peça só volta a ser apresentada, nos anos 2000, com outros patrocinadores.

Na década de 1980, Pimentel assina a coluna Sinal Fechado – alusão ao seu programa de TV da década anterior, do qual replica o controverso conteúdo -, no Jornal da Semana, importante veículo da chamada imprensa alternativa.

Em 1989, a cidade-teatro de Nova Jerusalém apresenta o seu tradicional espetáculo da Paixão em novos cenários, e o espetáculo é modificado para se adaptar a essa nova ambientação. A temporada desse ano bate o recorde de público total, com 71 mil espectadores em dez espetáculos.

Desentendendo-se com a produção da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, sobretudo, no tocante à necessidade de substituições no elenco, Pimentel é afastado do tradicional espetáculo, no segundo semestre de 1996. Em poucos meses, arregimentando artistas das mais diversas vertentes do teatro recifense, ele cria a Paixão de Cristo do Recife. Pimentel é produtor, autor do texto, diretor e principal ator da montagem, que é apresentada no Estádio do Arruda, pertencente ao Santa Cruz Futebol Clube. Em matéria do Jornal do Commercio, ele explica que o elenco reúne vários atores vindos da Paixão de Fazenda Nova, além de atores de outros grupos teatrais pernambucanos. Os espetáculos da Paixão do Recife continuam a ser encenados, a cada ano, no mesmo estádio de futebol, até o início dos anos 2000. Por decisão da direção do clube, o espetáculo de Pimentel tem que deixar de ser apresentado em seu estádio. A produção ganha, então, patrocínio da prefeitura e passa a ser realizada no Marco Zero do Recife Antigo a cada Semana Santa.

 Em 2008 Foi homenageado pela escola de samba recifense São Carlos com o enredo “A saga de José Pimentel, patrimônio vivo da cultura pernambucana”. A escola se tornaria campeã do carnaval desse ano.

 PATRIMÔNIO VIVO

No dia 13 de julho de 2017, José Pimentel foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco pelo Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural. Em 17 de agosto do mesmo ano, recebeu o diploma pelas mãos do Governador Paulo Câmara. Em sua fala de agradecimento, Pimentel ressaltou: “Eu quero, a partir desse título, seguir com meu trabalho com o teatro e nas artes em geral, com honestidade, ética e vontade de levar a todos o que eu aprendi e o que eu tenho pra aprender”.

Fontes:

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa511957/jose-pimentel

Site da Fundarpe.

Site da Fundação Cultural Cabras de Lampião.