CLEONICE MARIA é o nome artístico de Cleunice Maria dos Santos, mãe de dois filhos: Karl Marx e Sandino Lamarca, companheira do historiador, ator e homem multifacetado Anildomá Willans de Souza. Nós a chamamos simplesmente de Cleonice. Mulher de enormes qualidades e de uma dedicação total a tudo que faz na área artística. Além da arte, ela atua na política com uma consciência que poucas mulheres da sua geração possuem.

Sua história no mundo da arte popular e da cultura começa no ano de 1988, quando passa a dedicar sua vida ao mundo artístico com seu talento de atriz, representando com garra e muito talento a personagem MARIA, na peça Acorda, José!, encenada e dirigida por seu esposo, que naqueles tempos administrava o MTP – Movimento de Teatro Popular em Serra Talhada, trazido por ele da capital pernambucana em 1987. O espetáculo era muito simples e dialogava diretamente com o público.

A personagem interpretada por Cleonice representava todas as mulheres sofredoras, por assim dizer: do mundo. É digna de nota, que neste espetáculo, ela demonstra toda sua capacidade de mulher e atriz porque representou, antes e durante sua gravidez e, logo após o parto, já estava prontinha para seguir representando a Maria com naturalidade e todo o frescor e sofrimento que a personagem exigia da interprete.

Neste período da gravidez, era muito interessante perceber a preocupação das mulheres da plateia em observar as destrezas dela com aquela enorme barriga fazendo piruetas em cena, pois ela trabalhou até bem próximo de ir ao hospital ter o seu primogênito – Karl Marx, hoje grande dançarino/ator/poeta/produtor e seu escudeiro fiel frente à Fundação Cultural Cabras de Lampião, entidade que criou a quase 25 anos e que zela como esmero e afinco na perspectiva de manter a memória e o legado da história através das manifestações artísticas no município.

O espetáculo Acorda, José!, foi apresentado por vários lugares. Como se tratava de uma encenação de cunho popular a trupe se apresentava em praças públicas, auditórios, teatros e na zona rural nos alpendres das casas, salas de escolas e em baixo de árvores. Ainda quanto ao espetáculo Acorda, José! é importante salientar que dada à imensa identificação com os problemas do povo, pois ela falava da falta de moradia, fome, pobreza e a invasão da identidade nacional constituiu-se na peça teatral mais apresentada de Serra Talhada, até então.

Outro grande trabalho de Cleonice, foi na peça João Grilo, numa adaptação de Anildomá do Cordel de autoria de João Ferreira de Lima (1902-1973). Ela interpretava certa namorada de João Grilo que fazia o pessoal morrer de tanto rir. Em 1991, os serra-talhadenses assistem outra grande atuação dela no espetáculo A Formiga Fofoqueira, texto de Carlos Nobre e ainda no MTP; mais uma vez, Cleonice cria uma encantadora e inesquecível “formiga” com muita graça e sagacidade.

“Era encantador assistir aquela tão maldosa vilã enganando o Velho Seu Confusolino (Domar), a Dona Alface (Maria Aparecida de Oliveira) e o Espantalho (Gilvan Santos). Com esse espetáculo, o MTP inovava na produção porque era a primeira vez que o grupo mostrava uma peça para o palco em nossa cidade e também especialmente direcionada para o público infanto-juvenil”. Relembra Modesto de Barros, contra regra nesta peça.

“O MTP – Movimento de Teatro Popular deixa de existir para dá lugar ao Grupo de Xaxado Cabras de Lampião, fundado por ela, seu companheiro Domar e demais membros. É no Grupo de Xaxado Cabras de Lampião que ela vai brilhar ainda mais, representando a Maria Bonita e o seu irmão Gilvan Santos, sendo o Lampião, formando o casal de dançarino mais importante da existência do grupo – sem falsa modesta – até os dias atuais”. Sentencia O Sr. Modesto de Barros.

 

Em 2010 – Faz a narração do Documentário em DVD “Xaxado – A Dança de Cabra Macho”.  No ano de 2015 integra o elenco do Filme “Papo Amarelo – O Primeiro Tiro” e em 2017 participa do Curta “Lampião e o Fogo da Serra Grande”. Mais o lugar onde ela gosta de estar é na produção e execução dos projetos; gerando trabalho e renda para os mais de 30 associados e colaboradores da Fundação Cultural Cabras de Lampião.

A História do Grupo de Xaxado Cabras de Lampião se confunde com a história dessa mulher/artista que por cinco anos representou a Maria Bonita neste espetáculo que percorre todo o Brasil e o exterior. É coreógrafa e coordenadora do grupo desde sua criação há 25 anos. Está no segundo mandato de quatro anos, como presidente da FCCL, ela se tornou uma das maiores produtoras cultural do Nordeste e já faz trabalhos de produção fora de seu território.

Aqui na Capital do Xaxado produz e realiza à frente da FCCL eventos de grande porte como O Encontro Nordestino de Xaxado que chega a sua décima quarta edição, O tributo a Virgolino – a Celebração do Cangaço e O Mega Espetáculo teatral ao ar livre O Massacre de Angico – a Morte de Lampião.

Cleonice Maria é essa pessoa que dedica seu tempo fazendo o que mais gosta – servir à cultura. Diga-se de passagem, uma ‘cangaceira’ nessa empreitada, mulher, negra e artista pajeuzeira, porque descobriu sua vocação e carreira as margens do Rio Pajeú que corta o município de Serra Talhada e vai desembocar no São Francisco. Ela se diz privilegiada em tudo que fez e continua fazendo.

A filha de seu Severino e dona Anália, é muito amada e admirada por uma gama de personalidades e de pessoas simples que a cercam, que passaram pelo elenco do Xaxado e por onde ela passa deixa sua marcante impressão: “Há que endurecer o coração, sem jamais perder a ternura. Essa frase do Che Guevara, é seu lema.

Por Carlos Silva com a colaboração de Modesto de Barros.