“Eu quero iniciar dizendo que quando, nos reunimos naquele dia primeiro de janeiro de 1989, para fundar o CENTRO DRAMÁTICO PAJEÚ DE SERRA TALHADA, ninguém tinha ideia do passo que estávamos dando; e então, surgem às perguntas, tipo: o que levava um senhor com mais de quarenta anos a se juntar com jovens que nunca haviam assistido a uma peça de teatro e fundarem um grupo para fazer teatro? Qual seria o motivo? ” Começa dizendo o Sr. Modesto de Barros, fundador do CDP que resiste a 30 anos no fazer cultural desta cidade promissora.

Tendo acabado de chegar a Serra Talhada, de uma estadia de mais de 20 anos na capital de São Paulo, onde recebia notícia de que em Serra Talhada morria muita gente assassinada – especialmente – no bairro Bom Jesus, segundo as notícias que chegava a Modesto; havia até um mote macabro, que corria de boca em boca. “Era isso que infelizmente acontecia naqueles tempos sombrios em minha terra natal. O bairro citado é o mais habitado da cidade. Formado na sua maioria de pessoas vindas da zona rural e que carregam os modos e costumes – daquelas paragens. É neste cenário que nasce essa entidade que vai servir de ponte para ‘o fazer’ cultural de uma cidade ainda cheia de tradições arraigadas no conservadorismo coronelista”. Relata.

            Estas notícias o deixavam triste e preocupado e nos momentos em que essas preocupações tomavam conta do seu coração, vinha a vontade de voltar a sua cidade e ajudar naquilo que acreditava ser possível: trabalhar com jovens que enxergassem a cultura como trilha de futuro. “Eu recebia informações da existência de um movimento cultural que vinha atuando na cidade. Tanto era a minha vontade de contribuir que assim que cheguei fui visitar a recém-criada Casa da Cultura, a fim de obter informações sobre a movimentação artística local e a pessoa que me recebeu, não soube me informar absolutamente nada. Voltei bastante triste e falei para a minha mãe que não sabia com quem falar a respeito da cultura de Serra Talhada. Ela me aconselhou a ter calma e que alguma coisa em breve aconteceria”. Relembra ele no rol de seus 70 anos de vida.

Alguns dias depois, recebeu em sua casa a visita de Domar e Cleonice que faziam parte do MTP – Movimento de Teatro Popular e já estavam com a peça Acorda, José! em cartaz – e que se tornaria a peça mais representada da cidade, por aqueles anos. “Com eles, tive uma conversa iniciada às 9 e terminada às 17 horas. Coloquei minhas preocupações, vontades e daí por diante nasceu uma amizade que dura até hoje”. Comenta.

A ideia estava em pleno desenvolvimento, o grupo formado e eles trabalhando uma peça que teve sua estreia no dia 06 de maio de 1989, no antigo Centro Comunitário do Bom Jesus. “É interessante falar sobre os trabalhos com o grupo. Inicialmente se juntaram mais de 15 pessoas para fazer a oficina de formação idealizada por mim. Os trabalhos começaram no quintal da minha casa, na Rua dois, 889 – bairro Bom Jesus”. Recorda Modesto de Barros.

Haviam resolvido que a peça de estreia seria – A Bruxinha que era boa, da escritora Maria Clara Machado. Começaram os ensaios e logo teve início as dificuldades. “As meninas, que eram a maioria, pois na peça só havia um papel masculino, começaram a ter problemas com suas mães. Coisas corriqueiras do tipo: você precisa em primeiro lugar fazer as tarefas de casa e da escola e coisa e tal”.  Comenta e segue: “para resumir, no mês de março, tive que cancelar os ensaios da peça. Então, se inicia outro drama: o que fazer dali por diante? Foi um momento que cheguei a pensar em desistir do grupo, mais Deus abriu uma porta. Numa conversa com meu vizinho de nome Ednaldo (irmão de Edvaneida e Edivania) jovens pertencentes ao grupo, que contaram a ele que eu tinha cancelado a peça. Ele me disse que tinha vontade de escrever uma peça para ser encenada e que podia me ajudar em alguma coisa. Eu falei que ia ver o que poderia fazer. Dias depois mostrei o texto da peça B… em Cadeira de Rodas para ele e foi assim que renasceu a ideia de montar essa peça estreada no dia 6 de maio, aniversário de Serra Talhada”.

            Segundo Modesto os trabalhos foram intensos porque o tempo era apertado para a montagem. Tudo foi sistematicamente se encaixando. Nesta época falaram com o administrador do Centro Comunitário do Bom Jesus que permitiu o uso do espaço. “Com esse trabalho, realizamos a Primeira Mostra de Teatro de Serra Talhada, mostramos em outras localidades, como por exemplo: na Faculdade de Formação de Professores – FAFOPST, a convite do Diretório Acadêmico que naquele período era dirigido pelo amigo Ronaldo Aureliano. É interessante registrar que Ronaldo a partir daquela época passa a integrar o fazer cultural de Serra Talhada e deixa uma obra interessante na Estação Ferroviária que até hoje pode ser vista. Afirma ele com emoção.

            Ronaldo Aureliano, que era escritor, artesão e se forma em Geografia pela FAFOPST; escreveu muita coisa e o seu livro de poemas serviu de “mote” para um recital que o Centro Dramático produziu, com a poesia Negro, apresentado em 6 de maio de 1990, também no Centro Comunitário. “Com a nossa permanência do Centro Comunitário, passamos a fazer um trabalho cultural com mais consistência. Lá ficamos até a chegada do Prefeito Augusto César, o qual convida – Domar para ser o seu Diretor de Cultura e este me convida para ser o seu Assessor Cultural. Com muita honra aceitei ficando de 1993 a 1996”.

Mesmo exercendo a assessoria cultural do município, Modesto não deixa de fazer o trabalho no Centro Dramático. É nesse período que monta a peça O CIRCO RATAPLAN, montagem de 1993, com um elenco maravilhoso, o qual citamos: Arilson Lopes, Fabiana Moura, Iza Rodrigues, Célia Moraes, Bia Souza, Modesto de Barros, Carlos Henriques (Carlinho Pajeú) e Josemir Bezerra, com trabalhos técnicos de Francisco Barros e Marquinho, figurinos de Modesto de Barros e adereços de Luíza Nogueira.

            A peça fica em cartaz até 1996, tendo sido o início de um trabalho maravilhoso com a juventude. “Fizemos apresentações na cidade de Custódia, Carnaíba e no Distrito de Logradouro – Serra Talhada – sendo a primeira peça de teatro vista por aquela comunidade ruralista. Em 1996, para celebrar meus 20 anos de militância no teatro (ele começa a fazer teatro no ano de 1976 em São Paulo), resolvemos montar o Monologo – OS MALEFÍCIOS DO TABACO – tendo no elenco – Modesto de Barros, com assistência de Direção à colega que infelizmente deixou o movimento teatral – Cecília Rejane Lima, trabalhos técnicos de Ildo Jr. e produção do Centro Dramático Pajeú”. Coloca.

            Para comemorar os 10 anos do Centro Dramático em 1999, remontaram B… Em Cadeira de Rodas – nesta segunda montagem ele teve a colaboração de muita gente – inclusive da Diretoria Regional da Federação de Teatro de Pernambuco na pessoa de Vera Patello que concebeu os cenários e figurinos do espetáculo. A estreia deu-se no Auditório Padre Anchieta do Colégio Municipal Cônego Torres, no elenco: Modesto de Barros e Cosme Fernandes, trabalhos técnicos do companheiro Zeinha, que atualmente segundo Modesto é policial civil.  “Na verdade, o grupo passou muito tempo usando o auditório daquele educandário e uma de nossas frustrações era a falta de participação dos alunos e alunas daquela escola”. Pontua.

“É importante mencionar que a partir de janeiro de 2005, o colega Carlos Silva, passa a fazer parte do Centro Dramático Pajeú e com isso o grupo ganha enorme visibilidade junto ao público de nosso município, através de diversos trabalhos e da imprensa”. Diz e acrescenta: “com essa injeção de ânimo, que foi a chegada de Carlos e o elenco da ETEAST, que era sua Equipe de trabalho, até então, fizemos uma junção bem positiva e neste ano encenamos a peça infantil – O RAPTO DAS CEBOLINHAS, da consagrada autora brasileira Maria Clara Machado, sendo o elenco composto por: Emanoel de Carvalho, Katia Alves, Renan Albuquerque, Sandino Lamarca, Carlos Silva, Robson Marques, Igor Rodrigues e Gilvânia Santos. A direção, concepção de figurinos, adereços, trabalhos técnicos sob minha alçada. Enfim Só, Solidão: A Comédia de Vicente Pereira e uma Montagem com Carlos Silva (que neste ano fazia 10 anos de atuação teatral) do Monólogo: Os malefícios, tendo na direção Gilberto Gomes.

                        Ainda como fruto da parceria firmada, entre CDP e ETEAST, nasce por sugestão deste que vos escreve o Abril-Teatro & Danças, evento cultural que procurava manter um intercâmbio com outras cidades da nossa região e recebia espetáculos de Canaã, Petrolina, Salgueiro, Triunfo, Igarassu, Caruaru, Recife e outras, nas 5 edições consecutivas do evento. Sendo 2 edições no Auditório do Cônego Torres e 3 no antigo CIST que passou em 2006 a ser a casa do Teatro do município e lá encenamos e reencenamos vários espetáculos musicais e de teatro. O Abril-Teatro & Danças que era como se fosse um festival de artes porque tinha cinema, música, recitais de poesias, exposições de artes plásticas, fotográficas e até comedorias.

Vale salientar que o CDP desde sua fundação realiza oficinas (anual) de formação e produz seus espetáculos, que passaram a circular por festivais e várias cidade nordestinas e com a junção da ETEAST foram encenadas ainda as seguintes peças: Casa de Mãe Chica em 2006, Neurose – a cidade e seus sentidos, 3×2, Elas… & Ele – Uma Comédia Musical, Confissões – Uma Comédia Divina, Simplesmente Shirley! e remontamos a peça de Eugénce Labiche – A Gramática.

“Nesta encenação aconteceu algo bastante peculiar que foi a mistura dos dois grupos, Centro Dramático e o GTAI, dirigido pelo colega Adriano Barros. A ideia de fazer essa mistura eu havia tentado em 1990, quando pretendia montar a peça O Capitão e o Cabra, juntando o CDP e o MTP – Movimento de Teatro Popular”. Ressalta Modesto.

            Em 2007, foi produzido o espetáculo – RÉQUIEM – com texto de Elmar Castelo Branco, direção de Paulo César Frazelly. No elenco Modesto de Barros, no papel de Salieri e Ildo Jr. como interprete do Padre; nos trabalhos técnicos Frank Ferraz. A estreia do espetáculo deu-se no antigo CIST (a sigla quer dizer – Clube Intermunicipal de Serra Talhada, fundado na década de 1950) – que naquela época estava sob a responsabilidade da Casa da Cultura.

            “Na metade de 2009, tivemos que sair do CIST. Foi um momento doloroso porque estávamos inscritos no Edital de Pontos de Cultura e com chances de sermos vencedores. O fato é que ficamos sem ‘teatro e sem espaço’ para colocar nosso material. No início, Tarcísio Rodrigues, então Presidente da Casa da Cultura nos abrigou no espaço da Casa do Artesão, na Praça Agamenon Magalhães onde ficamos até o início de 2010”.

Neste intervim houve uma conversa com o então Secretário de Desenvolvimento Social, Sr. Josenildo André Barbosa, que negociou com o Pároco do Bom Jesus para a gente ocupar o Centro Educativo do bairro, que estava ocioso naquele tempo. “É no Centro Educativo Bom Jesus e já oficialmente Ponto de Cultura que passamos a desenvolver um trabalho mais consistente. Com a ajuda do município, o prédio foi reformado, a fim de que o nosso trabalho tivesse mais dinamismo e os usuários fossem atendidos da melhor forma possível”. Fala.

Paralelo a isso, foram convidados a dividir o trabalho com a Casa da Cidadania, localizada no bairro Borborema. Era basicamente as mesmas oficinas desenvolvidas no Centro Educativo que consistia na de formação em artes cênicas. O primeiro resultado deu-se com uma participação dos alunos e alunas da Casa da Cidadania em uma encenação da Paixão de Cristo que existia naquela comunidade. “Tivemos que parar as atividades ali desenvolvidas em virtude de falta de interesse dos próprios usuários”. Relata.

            “Acho interessante falar das vantagens que foram ser Ponto de Cultura. Do ponto de vista histórico, na realidade o Centro já desenvolvia atividades que o credenciava ser um Ponto de Cultura e assim, ter a possibilidade de contar – temporariamente – com recursos para fazer essas atividades que já realizávamos foi salutar”.

            Foram abertas inscrições para as oficinas no Centro Educativo e pra surpresa de Modesto houve mais de 200 inscritos. “Evidentemente, com o desenrolar das ações, espontaneamente as pessoas foram deixando de participar e quando realizamos a nossa primeira mostra de resultado tivemos a participação de 30 pessoas”. Relembra.

A mostra se fez com uma turma de teatro e outra de danças. A turma que optou pelo teatro era mista e na turma de dança popular, somente mulheres participaram. “Esse dado é importante salientar, porque de alguma maneira, mostra as características daquela comunidade, originária da zona rural, na sua maioria, que ainda guarda ‘sentimento de que dança em grupo’ é mais pertencente ao gênero feminino. É claro que isso não é uma verdade em absoluto, mesmo porque no bairro existem vários grupos que dançam quadrilhas juninas, fato que desmonta totalmente essa ideia”.  Argumenta Modesto de Barros.

            O Centro Dramático Pajeú, como Ponto de Cultura, continuou no Centro Educativo Bom Jesus, até o final de 2012. Lá, foram produzidos vários espetáculos de teatro, danças, exposições de artes plásticas e exibições de filmes. “Aliás, foi lá que fundamos o Cine Clube Pajeú, o primeiro cine clube oficialmente formado em Serra Talhada”. Pontua.

Os destaques deste período são os espetáculos: Jesus & Judas – traição ou missão?, com Mannoel Lima e este que vos escreve no elenco. “Neste espetáculo, contamos com uma equipe excelente, que merece ser mencionada: o texto de Adriano Marcena, a direção de Carlos Silva e assistência de Modesto de Barros, cenários de Mannoel Lima, customização dos figurinos de Paulo César Frazelly, caracterização de Karine Gaya, plano de luz Modesto de Barros, trilha sonora Carlos Filho, execução de som e luz, Diego Adriano, foto e vídeo do saudoso Alejandro Garcia, designar gráfico Evânia Nogueira, locução Orlando Santos e a produção foi do CDPST – Ponto de Cultura”. Relata Modesto e continua: “na sequência foi encenada a comédia de Robson Araújo, Conversa de Lavadeira, sendo que o elenco foi formado com os participantes da Oficina de Formação do Ponto de Cultura, sendo eles: Vanise Mariano, Dany Feitosa, Leandra Nunes, Gildo Alves e Humberto Cellus, com direção de Carlos Silva, o qual ministrou a oficina, contando a ajuda de Vanda Lima, da saudosa Helena Conserva, Jorge Costa e Modesto de Barros na supervisão e finalização dos trabalhos”.

            Em 2013, o grupo teve que sair do bairro Bom Jesus, em virtude de que o novo padre não aceitou as atividades do Ponto de Cultura no espaço paroquial. “Não podíamos ficar parados e resolvemos alugar um pequeno espaço no centro da cidade que servia para abrigar parte do nosso acervo e fazer as atividades que a essa altura já eram muitas”. Diz. “No novo espaço montamos o espetáculo – BEATA MARIA DO EGITO, numa adaptação do ator e diretor recifense Taveira Jr., que fez a direção. Foi montado o infantil o Reizinho da Fome, com direção de Karine Gaya e Jacaré – espaçonave do Céu, numa produção conjunta com a Galharufas Produções”.

Neste espaço seguiu acontecendo as oficinas de formação, o Cine Clube Pajeú e desde 2013 a Oficina de Canto Coral, a qual permanece até hoje, com a formação do Coral Anita Villarim. “Em 2018, montamos o espetáculo – A formiga Fofoqueira, texto de Carlos Nobre, no elenco, Gorete Lima, Danielly Duarte, Hícaro Nogueira e Johnny Araújo. A direção é de Modesto de Barros, com assistência de Carlos Silva e Dany Feitosa na caracterização dos personagens. Com esse espetáculo, pudemos participar da XI Mostra de Teatro de Serra Talhada, a qual aconteceu em abril”. Relata Modesto com o entusiasmo de quem ainda quer fazer bastante pela cultura no município.  

            Para finalizar ele faz questão de nos lembrar daqueles que passaram pelo grupo e que hoje estão contribuindo com nosso País, cada um com sua personalidade e trabalho. “Posso citar em primeiro lugar: o querido Arilson Lopes, ator de grande talento e muita disciplina, Leandra Nunes, ainda estudando e morando no Estado de Goiás, Carlinhos Pajeú, músico, Petrônio Lorena, cineasta, músico, Renan Albuquerque, atuando no Ministério Público Estadual, Humberto Cellus, cantor e poeta e concluindo finalmente, quero homenagear os que deixaram enormes saudades, começando por Edinaldo Cordeiro, que fez comigo B… em Cadeira Rodas, em 1989, o meu querido amigo e companheiro de todas as horas – João Batista da Silva, que durante muito tempo foi o Tesoureiro do grupo, o meu compadre e afilhado Vanilson Leite da Silva – o Nego da Capoeira que foi durante muito tempo nosso associado e por último, a minha filha, Meyre Cattarynne que era a mais entusiasta do grupo. A eles, que Deus lhes dê a luz eterna e a nós inspiração para continuarmos levando a arte e a cultura como esperança de uma vida melhor para todos e todas.

            Ao Centro Dramático e seus atuais associados nossos parabéns e votos de mais 30 vezes 30 anos de teatralidade e minha gratidão em ter feito parte desta obra e poder continuar contribuindo com os feitos desta entidade que tanto faz pelas manifestações artísticas em nosso município. Evoé!

Serra Talhada, março de 2019.

Texto de Modesto de Barros, com edição e colaboração de Carlos Silva.